Competição e crianças

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Muito se ouve discutir acerca da competição nos escalões de formação. Há quem a defenda e a apoie, incentivando filhos e alunos a competir, mas tambem há quem a ignore e manifestamente a reprove. Quem terá razão? Cabe a cada um de nós, como individuos chegar a essa conclusão, não sem antes vermos ambos os lados desta “batalha”.

Na minha opinião pessoal, creio que se terá de analizar o meio em que a mesma acontece. Quando se fala de competição em Karate a uma pessoa que a desconheça, a primeira imagem que lhe vem à ideia será a de combates intensos, com extremo contacto, socos e pontapes… mas esta imagem fica muito aquem  da realidade. Embora tenha conhecimento que existam competições de outras modalidades e estilos que inclusive poderão surgir K.O. mesmo nestes escalões, o caso do Karate institucionalizado no nosso País nada tem a ver com essa ideia.

Embora para muitos o Karate resuma-se a combates (Kumite), a “ferramenta” mais importante deste é o Kata (exercicio formal, efectuado só ou em equipa), no qual o praticante demonstra um esquema pré-definido de movimentos e técnicas representativas do seu estilo/escola de Karate. Dois competidores, um de cada vez, deslocam-se ao tatami (area de competição) e realizam o seu Kata, cabendo a um painel de Juizes decidir qual terá sido melhor executado. É com este tipo de provas que um jovem se inicia. Com os praticantes divididos em escalões etários (e em alguns casos em nível de graduações) a competição começa com os seguintes escalões:

  • Pré Infantis (até aos 9 anos de idade) – Prova de Kata

  • Infantis (10-11 anos) – Prova de Kata

  • Iniciados (12-13 anos) – Prova de Kata e Kumite

  • Juvenis (14-15 anos) – Prova de Kata e Kumite

  • Cadetes (16-17 anos) – Prova de Kata e Kumite

  • Juniores (18-19-20 anos) – Prova de Kata e Kumite

  • Seniores (+21 anos) – Prova de Kata e Kumite

Sendo assim, uma criança com 6 ou 7 anos não começa a competir em confrontos físicos, o que para muitos jovens da nossa sociedade actual devido a varios factores seria uma experiência traumatizante. Começa por existir uma “luta” interior consigo mesmo, começando por superar a barreira do desconhecimento dos Katas e das técnicas, passando para um aperfeiçoamento técnico que lhe irá permitir uma execução da forma mais exacta e fiel. Depois dessas etapas serem superadas com exito, e se for do inteiro agrado do praticante, podemos incentiva-lo a competir. Aí ele irá experimentar um conjunto novo de situações e emoções. Somente o facto de uma criança conseguir estar no meio de 100,200 ou 500 outras crianças e jovens desconhecidos para ele, mas que no entanto fazem uma actividade igual, é por si só uma experiência enriquecedora, explorando as suas capacidades sociais e identificando-se num meio. Depois surge a fase de deslumbramento em que vê atletas com mais experiencia que ele, com uma técnica superior, efectuando Katas que ele nunca vira antes, de uma forma em que ele se irá auto-avaliar. “Estarei ao nivel deles? Será que consigo?” As dúvidas começam a surgir. Depois vem a parte que ele tanto esperava, a execução do Kata. O medo de se enganar, todos os olhos estarão nele por minutos…no entanto tudo corre bem e ele passa à fase seguinte. O treino e esforço compensou, neste momento sente uma alegria imensa, não por ter ganho perante outro atleta, mas por ter superado barreiras, e experimentado emoções que lhe irão ser comuns noutras situações da Vida.

Quando tiver idade, e se for do seu agrado, irá passar por tudo outra vez quando entrar em provas de Kumite. Mas aqui a situação será muito diferente. Ele é uma pessoa muito mais confiante, com um poder e mestria técnica muito superiores…mas os seus adversários tambem o serão.

Neste percurso alem de um Instrutor compreensivo e capaz, é muito importante o apoio dos Pais. Nos Links que se seguem poderão encontrar alguns videos que demonstram o entusiasmo com que um Pai segue as actividades dos seus filhos. Maria de 9 anos entra na sua 1ª competição de Karate, após somente 4 meses de treino, e o Pai decide imortalizar o momento em video. Podemos constatar o ambiente em que a prova decorre e a alegria e dedicação dos intervenientes. Noutro video vemos o seu outro filho, Salva de apenas 6 anos, embora esteja apenas à 5 meses no Karate, é o seu heroi.

O papel do Instrutor também é deveras importante. Terá de ser alguem conhecedor do meio competitivo e das suas regras. Com solido conhecimento de preparação fisica e metodologia de treino, etc…não basta ser um bom karateca. Os laços que se criam entre atletas e competidores sao muitas vezes chamados de amor/ódio, mas são sem dúvida alguma muito fortes. Aqui podemos assistir a uma parte do estágio dado por Ivan Leal, atleta espanhol e Campeão do Mundo de Kumite, Alcalá de Henares em Espanha. É mais uma prova que os métodos de ensino terão de ser adaptados ao jovens, sendo alegres e muito divertidos. É necessária a actualização de métodos de treino utilizados por Instrutores espalhados por Portugal fora, se queremos ver jovens saudáveis, e satisfeitos com aquilo que fazem…KARATE.

 

Jaime Reis

Instrutor de Nivel 1 da FNKP, Juiz Nacional de Kumite e Presidente da Direcção da Do-UNAM 

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